Novo teste para diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob tem acurácia de 100%

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Sue Hughes

 

Um novo algoritmo de teste para o diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob – combinando os resultados de amostras de líquido cefalorraquidiano e de swab nasal – tem praticamente 100% de especificidade e sensibilidade e deve levar ao diagnóstico definitivo dessa doença priônica, concluem os pesquisadores em um novo estudo.

O estudo, publicado on-line no periódico JAMA Neurology em 12 de dezembro, foi realizado por uma equipe liderada pelo Dr. Gianluigi Zanusso, médico da Università di Verona, na Itália.

Eles observam que até agora o diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob – com cerca de 400 casos por ano nos Estados Unidos –  tem sido problemático. Os pacientes apresentam demência de progressão rápida e sintomas cerebelares, que muitas vezes podem ser confundidos com várias outras doenças.

Com as pesquisas de apoio, como amostras de líquido cefalorraquidiano, ressonância magnética e análise do eletroencefalograma, os critérios diagnósticos ainda são associados a apenas 83% de sensibilidade e 71% de especificidade, deixando um alto grau de incerteza sobre o diagnóstico e muitos pacientes com doença de Creutzfeldt-Jakob sem identificação diagnóstica.

O novo teste é conhecido como second-generation real-time quaking-induced conversion (RT-QuIC). Ele pode detectar quantidades diminutas (fentogramas) da proteína príon anômala específica da doença de Creutzfeldt-Jakob de todos os subtipos de doença de Creutzfeldt-Jakob esporádica no líquido cefalorraquidiano ou na mucosa nasal.

Dr. Zanusso e colaboradores observam que a tecnologia para realizar um teste desse tipo já está disponível na maioria dos países ocidentais, por isso, “a inclusão deste procedimento na prática clínica parece viável”. Os pesquisadores acrescentam que na Itália o custo médio varia de o equivalente a 100 a 200 dólares; os resultados estão disponíveis em cerca de três dias para testes no líquido cefalorraquidiano e no mesmo dia para o swab da mucosa nasal.

“A combinação do RT-QuIC com os testes genéticos rapidamente confirmaria ou descartaria o diagnóstico de praticamente todos os pacientes com suspeita clínica de doenças priônicas em seres humanos”, escrevem eles.

No editorial que acompanha o estudo, o Dr. Paul Brown, médico do Laboratory of Central Nervous System Studies dos National Institutes of Health, em Bethesda, Maryland, afirma: “Este teste prático, barato e preciso demorou a chegar, mas ao menos temos um procedimento verdadeiramente prático para o diagnóstico esporádico da doença de Creutzfeldt-Jakob. Bravo aos autores por este trabalho impecável e convincente!”

Em uma entrevista para o periódico JAMA, o Dr. Brown observou: “É importante poder determinar com certeza o diagnóstico específico do paciente, e isto não tem sido fácil com a doença de Creutzfeldt-Jakob, dada sua semelhança a uma série de outras doenças neurodegenerativas”.

“Tem havido um grande número de ocorrências nas quais o diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob não foi feito por haver outras doenças concomitantes, e houve várias ocorrências em que os pacientes com doença de Creutzfeldt-Jakob insuspeita foram submetidos a cirurgia sem precauções para evitar a propagação da doença. Este teste vai impedir que isso ocorra.

“Ganhamos na loteria”

“Toda vez que temos um teste diagnóstico com 100% de especificidade e sensibilidade, ganhamos na loteria”, acrescentou o Dr. Brown. “Os resultados deste estudo devem se tornar rapidamente o padrão para o diagnóstico da doença priônica em humanos”.

O médico também sugere que o teste pode ser incluído nos exames laboratoriais de rotina de todos os pacientes com alterações mentais e comportamentais ou cerebelares, independentemente da suspeita diagnóstica.

Neste estudo de caso-controle, as amostras de líquido cefalorraquidiano e os swabs de mucosa nasal foram coletadas de 86 pacientes com diagnóstico clínico de doença de Creutzfeldt-Jakob provável (n = 51), possível (n = 24) ou suspeita (n = 11) e de 104 amostras negativas de pacientes de controle.

Os pacientes com suspeita de doença de Creutzfeldt-Jakob foram acompanhados até a morte (quando o diagnóstico definitivo pôde ser feito nas amostras post-mortem) ou até que um diagnóstico alternativo tenha sido firmado, quando foram reclassificados de acordo com os critérios diagnósticos reconhecidos internacionalmente. O diagnóstico final entre esses pacientes totalizou 69 com doença de Creutzfeldt-Jakob, e 17 pacientes foram reclassificados como não tendo a doença.

Os novos testes identificaram corretamente todos os 61 pacientes com doença de Creutzfeldt-Jakob esporádica, com uma sensibilidade diagnóstica global de 100% (intervalo de confiança, IC, de 95% , 93 – 100). Todos os 71 pacientes com diagnóstico final de doença não priônica tiveram resultados negativos, com o novo algoritmo dando 100% de especificidade (IC de 95%, 94 – 100).

Dos 86 pacientes com potencial de doença de Creutzfeldt-Jakob, 17 (20%) foram prontamente desviados para diagnósticos alternativos excluindo a doença de Creutzfeldt-Jakob, entre os quais cinco foram tratados com sucesso.

Contudo, o teste não foi tão acurado no diagnóstico das formas genéticas da doença. Dos oito pacientes sintomáticos com várias mutações que causam a doença de Creutzfeldt-Jakob ou a síndrome de Gerstmann-Straussler-Scheinker, seis tiveram resultados positivos e dois tiveram resultados negativos do RT-QuIC, para uma sensibilidade de 75% (IC de 95%, 36% – 96%).

Dr. Brown escreve: “Dado que há quase 100% de positividade entre os pacientes com doença de Creutzfeldt-Jakob esporádica, é curioso que apenas metade dos oito pacientes sintomáticos com resultados positivos para a mutação com formas genéticas da doença priônica tenham tido resultados positivos.

O médico observa que o número de casos genéticos ainda é pequeno demais para permitir tirar qualquer conclusão desta aparente disparidade, mas sugere que alguns futuros casos de doença de Creutzfeldt-Jakob esporádica também terão resultados falso-negativos, ou que as formas esporádica e genética da doença podem ser de fato diferentes em termos do momento e da distribuição da proteína com formato incorreto no líquido cefalorraquidiano e na mucosa nasal.

Dr. Brown acrescenta que o teste ainda não foi otimizado para detectar proteínas com formato incorreto em variantes da doença de Creutzfeldt-Jakob, mas isso não é “nem surpreendente, nem preocupante”, porque esta forma de doença de Creutzfeldt-Jakob praticamente desapareceu.

Dr. Zanusso disse que o próximo passo seria criar um teste genético. “Atualmente, podemos suspeitar a doença de Creutzfeldt-Jakob por seus sinais clínicos, mas não podemos pegar os pacientes antes deles apresentarem sintomas. Precisamos encontrar um teste que identifique os pacientes portadores de um gene de doença priônica, sujeitos a ter a doença no futuro. Em seguida, pode ser possível obter uma terapia muito precoce para impedir que ela progrida.”

Dr. Brown concordou. Observando que estudos com animais mostraram que a proteína alterada da doença de Creutzfeldt-Jakob é detectável muito cedo na doença, bem antes dos sintomas começarem, ele sugere que os membros assintomáticos de famílias com doença priônica façam testes repetidos, e que o swab nasal inicial será especialmente útil como procedimento inócuo para o paciente neste grupo.

Este estudo foi parcialmente subsidiado por uma bolsa da Alliance Biosecure Foundation, por projetos conjuntos OLFASSAY e apoio aos pesquisadores do Joint Programming Neurodegenerative Disease da Università di Verona, e do Intramural Research Program do National Institute of Allergy and Infectious Diseases. Os autores e o Dr. Brown informaram não possuir conflitos de interesse relevantes ao tema.

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