“Bad trips” com psilocibina reforçam necessidade de proteção dos participantes em pesquisas com a droga

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Megan Brooks

Em um levantamento feito com usuários de psilocibina como droga recreativa pela ingestão dos chamados “cogumelos mágicos”, um em cada dez participantes informou que sua pior “bad trip” (“viagem” com alucinações persecutórias) colocou a si e aos outros em situação de risco.

A maioria substancial classificou sua “bad trip” mais angustiante como um dos 10 maiores desafios de suas vidas. No entanto, a maioria referiu que esta experiência negativa foi “significativa” ou valeu a pena, com metade das pessoas afirmando ter sido uma das experiências mais valiosas na vida delas.

Estes resultados foram publicados na edição de dezembro do Journal of Psychopharmacology.

Fatores de risco para “bad trip”

“Considerando tanto os efeitos negativos quanto os resultados positivos descritos algumas vezes pelos entrevistados, os resultados da pesquisa confirmam nossa visão de que nem os usuários nem os pesquisadores podem estar despreparados em relação aos riscos associados à psilocibina”, disse Roland Griffiths, psicofarmacologista  e professor de psiquiatria, ciências comportamentais e neurociências da Johns Hopkins University School of Medicine, em Baltimore, Maryland, em um comunicado à imprensa.

Roland Griffiths

Griffiths passou mais de uma década estudando a capacidade da psilocibina de produzir experiências místicas profundas, tratar a ansiedade e a depressão, e ajudar na cessação do tabagismo. O objetivo da pesquisa atual foi lançar luz sobre as repercussões das experiências negativas com a psilocibina.

Por meio de anúncios em mídias sociais e convites por e-mail, os pesquisadores recrutaram pessoas que relataram ter tido alguma experiência psicologicamente difícil ou desafiadora depois de terem tomado cogumelos mágicos. No total, 1.993 pessoas preencheram um questionário on-line sobre a sua pior “bad trip”.

Os entrevistados tinham 30 anos de idade, em média, no momento da pesquisa e 23 anos de idade no momento da sua pior “bad trip”; 93% informaram ter usado a psilocibina mais de duas vezes. A maioria das pessoas que respondeu ao questionário foi de homens brancos, e aproximadamente metade tinha feito faculdade ou pós-graduação.

Cerca de 11% dos entrevistados relataram que eles próprios ou outros ficaram em situação de risco de lesões físicas durante a “bad trip”; 2,6% informaram terem se comportado de uma maneira fisicamente agressiva ou violenta em relação a si ou aos outros; e 2,7% referiram ter procurado auxílio em um hospital ou serviço de emergência durante a experiência. Dentre aqueles cuja “bad trip” ocorreu há mais de um ano, 7,6% procuraram tratamento para sintomas psicológicos permanentes após a experiência.

Os fatores que aumentam a probabilidade de comportamentos de risco durante a experiência estudada foram uma dose maior de psilocibina, maior duração do efeito, dificuldade da experiência, bem como a ausência de conforto físico ou apoio social durante a experiência.

Dentre as pessoas que responderam ao questionário, cinco que tinham história de ansiedade, depressão ou ideação suicida antes da experiência tentaram o suicídio durante sua pior “bad trip”. Seis pessoas informaram que seus pensamentos suicidas desapareceram após a “bad trip”, o que está de acordo com os resultados de um estudo recente realizado por Griffiths e colaboradores sugerindo que a psilocibina teve efeitos antidepressivos em pacientes com câncer.

Como anteriormente noticiado pelo Medscape, neste estudo, uma única dose alta de psilocibina administrada em um ambiente controlado produziu efeitos rápidos, clinicamente significativos e duradouros sobre o humor e a ansiedade dos pacientes com câncer terminal.

Cerca de dois terços (62%) dos entrevistados classificaram a “bad trip” como entre as 10 experiências mais difíceis de suas vidas, 39% a classificaram entre as cinco experiências mais difíceis e 11% a consideraram a experiência mais difícil vivida até então.

Apesar destas dificuldades, “é notável”, afirmam os autores, que 84% dos entrevistados tenham informado ter se beneficiado desta experiência, com 76% referindo aumento do bem-estar ou da satisfação com a vida atribuídos a ela. Curiosamente, mais de um terço (34%) dos entrevistados informaram que sua “bad trip” se classificava entre as cinco experiências mais significativas de suas vidas, e 31% a consideraram entre as cinco experiências mais expressivas espiritualmente.

“Contrariando o bom-senso, o fato de experiências extremamente difíceis às vezes também poderem ser experiências muito significativas vai ao encontro do que vemos nos nossos estudos com a psilocibina – que a resolução de uma experiência difícil, por vezes descrita como catarse, muitas vezes resulta em um significado pessoal positivo ou um significado espiritual”, disse Griffiths.

Droga poderosa

O Dr. George Greer, psiquiatra e diretor médico do Heffter Research Institute, que financiou parcialmente a pesquisa, disse ao Medscape que, fora da pesquisa com a psilocibina, experiências de vida difíceis muitas vezes resultam em benefício pessoal.

Alguns exemplos deste conceito de “não se faz omelete sem quebrar alguns ovos” são o trabalho pesado, o treinamento atlético e a formação acadêmica. Esta pesquisa parece confirmar que aprender com a adversidade também se aplica a experiências interiores intensas, bem como às dificuldades mais comuns da vida cotidiana, disse ele.

Griffiths e colaboradores observam que os resultados da pesquisa “confirmam as preocupações acerca do uso de psilocibina em ambientes não controlados”. De acordo com o Substance Abuse and Mental Health Services Administration’s 2014 National Survey on Drug Use and Health, cerca de 23 milhões de pessoas, ou 8,7% dos norte-americanos, informaram já ter usado psilocibina.

Em termos da pesquisa com a psilocibina, estas conclusões “reafirmam a necessidade de colocar a segurança em primeiro lugar”, disse o Dr. Greer.

“A psilocibina é um medicamento poderoso, e a posição do Heffter é que os efeitos positivos encontrados na pesquisa até hoje são obtidos de modo mais confiável quando a psilocibina é administrada por um médico capacitado para isto e usada em um ambiente terapêutico. Não foi demonstrada segurança na administração da psilocibina quando usada fora do ambiente clínico ou laboratorial, e nós alertamos contra o uso recreativo da psilocibina por causa das possíveis reações psicológicas adversas”, acrescentou.

O Heffter Research Institute está subsidiando pesquisas com a psilocibina em várias áreas, incluindo câncer e dependência química.

“O contexto da pesquisa clínica oferece uma proteção fundamental contra potenciais prejuízos que o contexto recreativo não oferece”, observou o Dr. Greer. Esta proteção inclui uma avaliação psiquiátrica para excluir as pessoas com história de transtorno mental grave potencialmente recidivante, a presença de psicoterapeutas especialmente treinados para dar suporte aos participantes que passarem por experiências angustiantes e confusas, e horas de preparação por meio de psicoterapia antes e depois do uso, para auxiliar os participantes a extrair o máximo de benefícios dele.

Dr. Greer acrescentou que “menos de 1% dos participantes de protocolos de pesquisa clínica com psilocibina apresentam sintomas psicológicos duradouros, então as implicações para as pesquisas em andamento atualmente são de continuar a fazer uma triagem e uma preparação rigorosas, e oferecer apoio para os pacientes antes, durante e depois das sessões com psilocibina.

Risco aceitável?

Em uma entrevista ao Medscape, o Dr. Gerald Valentine, médico do departamento de psiquiatria da Yale University School of Medicine, em New Haven, Connecticut, disse que “o Heffter está patrocinando uma pesquisa científica da melhor qualidade sobre a psilocibina. Eles são muito atenciosos e rigorosos”.

Também vale a pena considerar o “risco relativo” da psilocibina em comparação aos outros tratamentos disponíveis, disse o Dr. Valentine, que não participou da pesquisa, nem de pesquisas subsidiadas pelo Heffter.

“Existem muitos tratamentos que são feitos com toxinas conhecidas, como os quimioterápicos contra o câncer. Há risco envolvido no uso desses fármacos e riscos envolvidos na pesquisa com estas substâncias. Mas se o resultado salvar vidas ou aumentar significativamente a capacidade funcional, especialmente no final da vida, ou a qualidade de vida ou mesmo a qualidade da morte – este pode ser um nível aceitável de risco”, disse o Dr. Valentine.

“Com a psilocibina, as experiências difíceis ou desafiadoras tipicamente caem na esfera psicológica ou espiritual, não na esfera física. Este é um tipo diferente de perfil de risco ao qual eu diria que os médicos não estão acostumados”.

“Colocando em uma escala relativa em termos de dano físico real, a psilocibina é extremamente segura, porém nós toleramos muitos medicamentos experimentais que apresentam riscos conhecidos, inclusive de morte, por ser um risco aceitável na tentativa de chegar a melhores tratamentos”, acrescentou.

O estudo foi financiado por bolsas do National Institute on Drug Abuse, Council on Spiritual Practices e Heffter Research Institute. Dr. Griffiths é membro do conselho diretor do Heffter Research Institute. Dr. Valentine informou não possuir conflitos de interesse relevantes ao tema.

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