Ciência ruim ou comida ruim? Especialistas debatem diretrizes para consumo de açúcar

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Several types of sugar - refined  and granulated

Marcia Frellick

As diretrizes sobre o açúcar na dieta publicadas nos últimos 20 anos não preenchem os critérios para recomendações confiáveis por razões que incluem evidências de baixa qualidade e aconselhamento inconsistente, dizem os autores de uma nova revisão publicada recentemente no Annals of Internal Medicine.

Jennifer Erickson e colaboradores, da University of Minnesota, em St. Paul, afirmam que sua pesquisa de literatura científica revelou nove diretrizes publicadas entre 1995 e 2016 que ofereceram 12 recomendações, sete das quais qualitativas e cinco quantitativas, que variaram ao recomendar que menos de 5% a menos de 25% do total de calorias por dia deveria ser proveniente de açúcares “não-intrínsecos”.

Mas todas as diretrizes tiveram resultados ruins quando avaliadas pelo Instrumento Appraisal of Guidelines for Research and Evaluation, segunda edição (AGREE II), dizem Jennifer e colaboradores, “especificamente no rigor de desenvolvimento, aplicabilidade e independência editorial”.

A terminologia diferiu entre as diretrizes, com algumas referindo-se a “açúcares livres” (que incluem açúcares encontrados em frutas, mel ou xaropes, bem como açúcares adicionados a alimentos e bebidas) ou “açúcares adicionados” ou entre as recomendações para bebidas açucaradas.

Os autores concluem que “até o momento, parece não haver nenhuma evidência confiável indicando que qualquer um dos limites calóricos diários recomendados para o consumo de açúcar está fortemente associado a efeitos negativos para a saúde”.

Financiadores representam gigantes da indústria de alimentos e bebidas

Entretanto, antes de aceitar as conclusões desses autores, dois editorialistas afirmam, é importante observar a fonte de financiamento para a revisão: a divisão norte-americana do Instituto Internacional de Ciências da Vida (ILSI).

“O ILSI North America é um grupo comercial que representa Coca-Cola Company, Dr. Pepper Snapple Group, Hershey Company, Mars, Nestlé e PepsiCo, entre outros”, escrevem.

O Dr. Dean Schillinger, da divisão de medicina interna geral da University of California San Francisco (UCSF) no Zuckerberg San Francisco General Hospital e Centro de Populações Vulneráveis da UCSF, e Cristin Kearns, do Instituto de Estudos de Políticas de Saúde da UCSF e da Faculdade de Odontologia da mesma instituição, acrescentam que o ILSI tem uma história de oposição a limites quantitativos de açúcar.

Jennifer e colaboradores observam que a fonte de financiamento é uma limitação do estudo, mas enfatizam que “elaboraram o protocolo e conduziram a pesquisa de forma independente do órgão de financiamento”.

Os editorialistas também criticam algumas das premissas da revisão. Uma é a de que os autores citam a inconsistência entre as recomendações feitas entre 1995 e 2016 como base para a necessidade de uma nova revisão das diretrizes.

“Seria de se esperar que recomendações feitas ao longo de mais de duas décadas evoluíssem à medida que o conhecimento científico evoluísse”, escrevem Dr. Schillinger e Kearns.

A politização da ciência

Jennifer e colaboradores também questionam a independência editorial das Diretrizes Dietéticas Americanas (DGA), que estabelecem o limite de açúcares em menos de 10% das calorias, dizendo que a fonte de financiamento “não estava clara”.

“Essa avaliação é curiosa”, argumentam os editorialistas. “O apêndice da revisão reconhece que a DGA é patrocinada pelo governo federal e que os membros do comitê consultivo foram cuidadosamente avaliados quanto a conflitos por regras federais”.

O Dr. Schillinger e Kearns afirmam ainda que usar a medida AGREE II para avaliar a qualidade das diretrizes é problemático porque ela foi feita para diretrizes de prática clínica no tratamento de doenças.

Diretrizes alimentares são destinadas a graduar o risco de consumo na população, eles escrevem, “não para avaliar as intervenções para reduzir o consumo”.

Os autores, ao usar essa ferramenta, reduziram a confiabilidade das diretrizes.

Os editorialistas reconhecem que a análise de diretrizes é bem-vinda, mas chamam este estudo de “politização da ciência”.

Quanto ao que pode ser feito para ajudar o público a ter informações sobre o efeito do açúcar na saúde sem potencial viés na pesquisa, os editorialistas sugerem uma mudança na política de publicação.

Eles observam, por exemplo, que os principais editores de periódicos se recusam a publicar artigos financiados pela indústria do tabaco e sugerem que a mesma posição seja tomada com relação à indústria de alimentos e bebidas.

“Os periódicos de alta qualidade poderiam deixar de publicar estudos sobre os efeitos dos açúcares adicionados na saúde, que sejam financiados por entidades com interesses comerciais no resultado”, sugerem eles.

E os legisladores – quando confrontados com alegações de que as diretrizes de consumo de açúcar são baseadas em “ciência ruim” – devem considerar se a “comida ruim” foi a fonte de financiamento, concluem.

Este projeto foi financiado pelo Comitê Técnico em Carboidratos da Dieta do ILSI North America. Os autores elaboraram o protocolo e escreveram o estudo de forma independente do ILSI. Jennifer Erickson relata não possuir conflitos de interesse relevantes ao tema. Declarações para os coautores estão listadas no site do periódico. Declarações dos editorialistas também podem ser consultadas no site do periódico.

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