Medicamentos psiquiátricos: Usados em longo prazo sem dados de segurança

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Aproximadamente um em seis adultos nos Estados Unidos relata o uso de um medicamento psiquiátrico. As taxas são significativamente maiores em pessoas com mais de 60 anos, e o uso crônico é relatado na maioria dos casos – apesar da falta de evidências sobre a segurança no longo prazo, segundo uma nova pesquisa.

“A maior surpresa foi a grande extensão do uso a longo prazo – 84,3% de todos os adultos utilizando medicamentos psiquiátricos”, disse ao Medscape o primeiro autor Thomas J. Moore, cientista sênior de segurança e política de medicamentos no Institute for Safe Medication Practices, em Alexandria, Virginia.

“Essa é uma preocupação de segurança, pois oito das 10 medicações mais amplamente utilizadas têm alertas sobre sintomas de retirada/rebote, são da categoria IV na DEA (Drug Enforcement Agency dos EUA), ou ambos”, disse Moore, que também é professor no Departamento de Epidemiologia e Bioestatística na Milken Institute School da Public Health George Washington University, em Washington, DC.

 

Alerta vermelho

Dados prévios da Substance Abuse and Mental Health Services Administration indicam que, em 2011, 11,5% dos adultos relataram utilizar uma prescrição de medicamentos para “problemas com emoções, nervos ou saúde mental”. No entanto, os dados não traziam detalhes sobre os tipos de medicamento e as características dos pacientes.

Para analisar melhor a questão, Moore e colegas avaliaram dados do levantamento de 2013 Medical Expenditure Panel Survey, que incluiu informações sobre o uso de antidepressivos, antipsicóticos, ansiolíticos, sedativos e hipnóticos entre pessoas com idade de 18 a 85 anos.

Eles descobriram que entre 242 milhões de adultos dos EUA, 16,7% relataram possuir uma ou mais prescrições de medicamentos psiquiátricos em 2013. Desses pacientes, 12% receberam antidepressivos; 8,3% receberam ansiolíticos, sedativos ou hipnóticos; e 1,6% receberam antipsicóticos.

Dos adultos com idade de 18 a 39 anos, 9,0% relataram uso de drogas psiquiátricas; dentre os adultos com idade de 60 a 85 anos, 25,1% relataram uso de medicamentos psiquiátricos (odds ratio, OR, 3,4).

Aproximadamente o dobro de mulheres usou medicamentos psiquiátricos (21,2%) em relação aos homens (11,9%, OR 2,0).

O uso de medicamentos psiquiátricos foi considerado de longo prazo pela maioria dos adultos para as três classes de medicamentos, com 84,3% relatando que receberam três ou mais prescrições em 2013 ou indicando o início do medicamento em 2011 ou antes.

Aqueles com uso de longo prazo relataram receber um média de 9,8 prescrições para medicamentos psiquiátricos durante 2013.

Com relação a raça, o uso de medicamentos psiquiátricos foi maior entre brancos, com 20,8% relatando prescrições, comparado a 9,7% dos negros, 8,7% dos hispânicos, e 4,8% dos asiáticos.

Moore disse que as razões para as maiores taxas entre brancos são desconhecidas, mas ele especulou que não se devem à questão do acesso às medicações.

“Dado que todas as 10 drogas principais estão disponíveis como genéricos, eu duvido que custo/acesso explique muito da diferença”, disse. “Outra razão possível está relacionada a questões culturais e de gênero quanto a medicação para depressão leve e problemas do sono”.

As 10 medicações psiquiátricas mais comumente utilizadas foram:

1. Sertralina , inibidor seletivo da recaptação de serotonina (ISRS)
2. Citalopram, ISRS
3. Alprazolam, benzodiazepínico
4. Hemitartarato de zolpidem, hipnótico
5. Fluoxetina, ISRS
6. Trazodona, inibidor de recaptação de serotonina antagonista
7. Clonazepam, benzodiazepínico
8. Lorazepam, benzodiazepínico
9. Escitalopram, ISRS
10 .Duloxetina, inibidor de recaptação de serotonina-norepinefrina

As altas taxas de uso em longo prazo de medicamentos psiquiátricos deveriam causar alerta quanto à necessidade de maiores monitoramento e atenção quanto a potenciais riscos, acrescentou Moore.

“Tanto pacientes quanto médicos precisam reavaliar periodicamente a necessidade continuada dos medicamentos psiquiátricos”, disse ele.

Como exemplo, ele observou que a depressão tende a ser um evento cíclico e que, em ensaios clínicos, pacientes com depressão que receberam placebo apresentaram uma melhora de 50% nos sintomas após seis semanas.

Além disso, efeito colaterais associados com antidepressivos podem incluir disfunção sexual, insônia e ganho de peso.

“E mais, os pacientes precisam entender que, em muitos casos, interromper o medicamento pode fazer parecer que o problema retornou”, acrescentou Moore. “Mas na verdade, podem ser os sintomas de retirada ou rebote, que se resolverão com a conscientização e cuidadoso desmame de dose ao interromper o uso”.

Em um relato publicado em 2015, Moore e seus colaboradores descreveram práticas de prescrição particularmente alarmantes do medicamento para o sono zolpidem (múltiplas marcas), que foi classificado em primeiro lugar na pesquisa dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) de medicações psiquiátricas relacionadas a consultas no pronto socorro.

Embora o medicamento seja recomendado para uso em curto prazo, até 68% dos pacientes utilizam o zolpidem em longo prazo, com pacientes recebendo três ou mais prescrições ou refis e uma média de uso por 229 dias.

A pesquisa mostrou que 22% dos usuários mantidos de zolpiden também eram usuários mantidos de opioides. Em 2013, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA recomendou que mulheres e idosos utilizem a menor dose de 5 mg do zolpidem genérico ou de 6,25 mg da versão de liberação prolongada, e apenas 5% das mulheres e 10% dos idosos estavam usando a menor dose. Uma melhoria modesta foi observada em 2014.

Quanto ao uso de antidepressivos, as taxas relatadas na nova pesquisa (12,9%) sugerem um aumento estável da utilização relatada na pesquisa anterior. A pesquisa inclui um estudo de 2014 utilizando dados de seis etapas transversais do National Health and Nutrition Examination Survey, envolvendo 35.379 adultos.

Esse estudo relatou um aumento da prevalência global do uso de antidepressivos de 6,5% em 1999-2000 para 10,4% em 2009-2010 (P < 0,001). A taxa de uso em longo prazo (definida como uso por 24 meses ou mais) mais que dobrou, de 3,0% para 6,9% no mesmo período (P < 0,001).

Os autores notaram que a tendência de aumento no uso em longo prazo de antidepressivos foi limitada àqueles que recebiam atendimento de clínicos gerais (odds ratio ajustada, 3,86; P < 0,001).

Tendência de aumento

O primeiro autor Dr. Ramin Mojtabai, professor no Departamento de Saúde Mental na Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health,em Baltimore, Maryland, disse que mais dados são necessários para determinar se a tendência é contínua.

“É muito cedo para podermos avaliar as tendências nos anos mais recentes”, disse ele ao Medscape. “O fato de que a tendência aumentou depressa em pacientes que recebiam tratamento com clínicos gerais pode ser simplesmente uma indicação de que esses profissionais estão se sentindo mais confortáveis em prescrever antidepressivos e outras medicações psiquiátricas em longo prazo”, acrescentou.

O Dr. Mojtabai acrescentou que os novos resultados sobre antidepressivos são consistentes com as tendências encontradas em outra pesquisa.

“Tem havido uma tendência crescente na prescrição e no uso de antidepressivos, especialmente em longo prazo. Muito do aumento aconteceu na década de 1990, com a introdução do Prozac. A tendência desacelerou no início dos anos 2000 mas continua a crescer em ritmo mais lento”, disse ele.

Dr. Mojtabai e equipe também relataram tendências da prescrição de sedativos e hipnóticos em um estudo publicado em julho no American Journal of Public Health. Os achados desse estudo mostraram um aumento significativo nas prescrições de benzodiazepínicos, de 3,4% em 2005 para 4,7% em 2012, e para agonistas de receptor não benzodiazepínicos, de 1,0% para 1,7% no mesmo período (para ambos, P < 0,01). Houve uma prevalência muito maior de consultas para prescrições novas ou para continuação do uso em clínicas psiquiátricas do que na atenção primária ou em outras especialidades.

“Pesquisas futuras precisam examinar a associação desse padrão de prática com o uso em longo prazo desses medicamentos e explorar fatores nos âmbitos da sociedade, do médico e do paciente, que estão levando a essas tendências”, escrevem os pesquisadores.

“Nossos achados também destacam a necessidade de esforços renovados no monitoramento da prescrição em longo prazo de sedativos e hipnóticos a pacientes vulneráveis – especialmente adultos idosos. Parte desses esforços poderia incluir a divulgação de informações com orientações para práticas de prescrição segura dessas medicações, por meio de educação médica continuada, aulas ou seminários, guias informativos, ou por lembretes e alertas em registros de prescrição eletrônica, alertando sobre a prescrição para grupos particularmente vulneráveis”.

Os autores e o Dr. Mojtabai declararam não possuir conflitos de interesse relevantes ao tema.

 

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