Depressão: uma epidemia progressiva e silenciosa entre estudantes de medicina

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Megan Brooks

Uma revisão sistemática e uma meta-análise de cerca de 200 estudos com a participação de 129.000 estudantes de medicina em 43 países mostraram que os índices de depressão entre esse grupo específico nos Estados Unidos e no mundo são altos.

Mais de um quarto dos estudantes de medicina sofre de depressão ou com sintomas da doença, e mais de um em cada 10 estudantes referem ter tido ideação suicida durante a faculdade, de acordo com a revisão. No entanto, apenas a minoria dos estudantes cujos resultados dos testes indicaram depressão procurou ajuda.

O estudo, foi publicado na edição de 6 de dezembro do JAMA, cujo tema é a educação médica.

Estudo seminal

Esta análise “provê o olhar mais abrangente já publicado sobre a prevalência da depressão e da ideação suicida, e também do tratamento psiquiátrico entre estudantes de medicina. Nosso estudo é uma espécie de resposta estrutural a esse respeito, por hora”, afirmou ao Medscape o Dr. Douglas A. Mata, médico e mestre em saúde pública do Brigham and Women’s Hospital e da Harvard Medical School, em Boston, Massachusetts.

O estudo mostra que o índice de “depressão e de ideação suicida é muito alto entre os estudantes de medicina, em comparação às pessoas da mesma faixa etária na população geral – que não são estudantes. Basicamente, o que temos é uma espécie de epidemia oculta em nossas mãos, que está escondida bem embaixo dos nossos narizes. Precisamos descobrir como vamos lidar com isso”, disse o Dr. Mata.

Com base nos dados provenientes de 167 estudos transversais e 16 estudos longitudinais de 43 países, a prevalência global agrupada estimada de depressão ou de sintomas depressivos foi de 27,2% e variou de 9,3% a 55,9%, segundo os pesquisadores. A prevalência de sintomas depressivos permaneceu relativamente constante durante o período do estudo (de 1982 a 2015).

Os nove estudos longitudinais que avaliaram os sintomas depressivos antes e durante a faculdade de medicina mostram aumento absoluto médio dos sintomas de 13,5%. As estimativas de prevalência não diferiram acentuadamente entre os estudos feitos somente com estudantes do ciclo básico e os estudos feitos apenas com acadêmicos e internos (23,7% vs. 22,4%).

Entre os estudantes de medicina cujos resultados dos testes foram positivos para depressão, apenas 15,7% procuraram tratamento psiquiátrico.

Com base nos dados de 24 estudos transversais de 15 países, a estimativa da prevalência global combinada de ideação suicida foi de 11,1% e variou de 7,4% a 24,2%.

“Muitos trabalhos sobre o assunto reagem à depressão, em vez de promover a proatividade. Quando o aluno fica deprimido, eles o vinculam aos recursos terapêuticos, mas acho necessário fomentar intervenções de bem-estar mais proativas entre esses estudantes, de modo a tentarmos evitar que as pessoas fiquem deprimidas, antes de mais nada”, disse o Dr. Mata.

Dr. Mata acredita que o sistema de formação acadêmica dos estudantes de medicina como um todo “precisa mudar. Isto pode significar a redução das horas de trabalho e da pressão sobre os estudantes, o que realmente lhes permitiria ter melhor desempenho. Isso já foi demonstrado em alguns estudos anteriores.”

“As pessoas se concentraram em ensinar sobre bem-estar e cuidados pessoais, mas ignoraram as questões relativas ao ambiente existente nas faculdades de medicina e nos hospitais, que são justamente os que provocam esses problemas, como, por exemplo, a privação crônica do sono”, acrescentou.

Esgotamento, depressão, suicídio

No editorial que acompanha o estudo, o Dr. Stuart Slavin, médico, MEd, do Office of Curricular Affairs na Saint Louis University School of Medicine, em Missouri, observa que a análise mostra que a saúde mental dos estudantes de medicina é um “problema global de proporção significativa”.

Ele acrescenta que vários aspectos da cultura da medicina e da educação médica têm, provavelmente, contribuído para a “resposta atrasada e, até recentemente, muda ao problema de longa data que é o comprometimento da saúde mental dos estudantes de medicina”.

Um dos aspectos é a crença de que a medicina é uma profissão exigente e, portanto, a faculdade deve ser extremamente rigorosa. Este sentimento tem diminuído nas últimas décadas, mas não desapareceu totalmente, de acordo com Dr. Slavin.

Outro aspecto da cultura médica é que os problemas da saúde mental não foram levados tão a sério como os da saúde física, e em geral a adoção de métodos terapêuticos tem sido maior do que a prevenção.

Dr. Slavin acredita que os desfechos da saúde mental dos estudantes “devem ser vistos como resultados críticos do programa, tão importantes como as notas e as classificações para as residências”.

Embora algumas faculdades estejam nomeando decanos ou diretores de “bem-estar”, a responsabilidade pelo bem-estar do aluno não deve ser limitada a um setor e a um administrador; “O bem-estar dos alunos deve ser motivo de preocupação para todos”, escreveu Dr. Slavin.

“As faculdades de medicina precisam se prontificar a enfrentar a crise da saúde mental dos estudantes de medicina”, concluiu.

Contatado para comentar sobre o assunto, Dr. Darrell G. Kirch, médico, presidente e CEO da Association of American Medical Colleges, afirmou que “as faculdades de medicina do país e os hospitais universitários estão extremamente preocupados com o crescente problema de esgotamento, depressão e suicídio entre médicos e estudantes de medicina”.

“Como psiquiatra por formação, este é um tema que me toca, tanto pessoal quanto profissionalmente. As descobertas desse estudo confirmam que devemos continuar a fazer tudo o que pudermos para apoiar e ajudar os membros da nossa comunidade”, declarou Dr. Kirch ao Medscape.

Ele observou que a Association of American Medical Colleges e as faculdades de medicina e de hospitais universitários participantes estão trabalhando para “melhorar o ambiente de aprendizagem e estão ajudando estudantes e formandos a desenvolverem habilidades que fortaleçam a resiliência diante dos desafios de um sistema de saúde em transformação.

“Para combater esta crise crescente na nossa comunidade, os estudantes e os médicos devem ser treinados em todas as fases de sua formação a tratar o estresse e o esgotamento e a saber quando pedir ajuda”, disse o Dr. Kirch.

No início deste ano, a Association of American Medical Colleges organizou um fórum de liderança para convocar decanos de faculdades de medicina, CEO de hospitais universitários, e professores universitários, entre outros, para discutir estratégias para aumentar a resiliência e a promover o bem-estar, comentou.

“Também nos envolvemos com a National Academy of Medicine, em um esforço colaborativo para promover a resiliência e o bem-estar dos médicos ao longo de suas carreiras.

“Para apoiar ainda mais os estudantes de medicina, residentes e outros, por meio da formação médica acadêmica, a Association of American Medical Colleges criou uma plataforma on-line (aamc.org/wellbeing), que oferece uma coleção de artigos, livros, oportunidades de aprendizagem, um índice dos programas de bem-estar disponíveis nas faculdades de medicina e nos hospitais universitários e conteúdo relacionado”, acrescentou Dr. Kirch.

O estudo foi financiado pelo National Institutes of Health e pelo US Department of State. Os autores declaram não possuir conflitos de interesses relevantes ao tema.

JAMA. 2016;316:2195-2196, 2214-2236. Resumo, Editorial

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