Ligação entre periodontite e artrite reumatóide

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Pesquisadores encontram ligação entre periodontite e artrite reumatóide

Data publicação: 03/01/2017

Pesquisadores da Johns Hopkins University, em Baltimore, nos Estados Unidos, relatam ter novas evidências de que uma bactéria conhecida por causar infecções inflamatórias crônicas da gengiva também desencadeia a resposta inflamatória “autoimune” característica da artrite reumatóide (AR) crônica, que destrói as articulações. Os pesquisadores dizem que os novos achados têm implicações importantes para a prevenção e tratamento da AR.

Em um relatório sobre o trabalho publicado na revista Science Translational Medicine, os pesquisadores dizem que o denominador comum que identificaram na doença periodontal e em muitas pessoas com AR é o Aggregatibacter actinomycetemcomitans. Uma infecção com esta bactéria parece induzir a produção de proteínas citrulinadas, suspeitas de ativar o sistema imunológico e conduzir aos eventos que desenvolvem a AR. “É como reunir as últimas peças de um quebra-cabeças complicado que tem sido trabalhado por muitos anos”, diz Felipe Andrade, MD, PhD, investigador sênior do estudo e professor associado de Medicina na Universidade Johns Hopkins School of Medicine, que também atua no Johns Hopkins Bayview Medical Center. “Esta investigação pode ser o que temos de mais próximo para descobrir a raiz da causa da RA”, acrescenta o primeiro autor Maximilian Konig, MD, um ex-companheiro da Johns Hopkins University School of Medicine e que atua agora no Massachusetts General Hospital.

Os médicos investigadores observam uma associação clínica entre a doença periodontal e a AR desde o início dos anos 1900, e ao longo do tempo, os investigadores têm suspeita de que ambas as doenças podem ser desencadeadas por um fator comum. Na última década, estudos focaram em uma bactéria conhecida como Porphyromonas gingivalis, encontrada em pacientes com doença gengival. No entanto, mesmo com os principais esforços atualmente em curso para demonstrar que esta bactéria provoca AR por induzir proteínas citrulinadas, todas as tentativas por esta equipe de investigação não conseguiram corroborar tal ligação, segundo Andrade. Mas sua equipe tem persistido em encontrar “drivers bacterianos” alternativos, por causa de ligações intrigantes entre doença periodontal e AR.

Para este estudo, a equipe de investigação com experiência em microbiologia periodontal, doença periodontal e AR começou a procurar um denominador comum que pode ligar ambas as doenças. As pistas iniciais vieram da análise do estudo de amostras periodontais, onde descobriram que um processo similar que tinha sido previamente observado nas articulações de pacientes com AR estava ocorrendo nas gengivas de pacientes com doença periodontal. Este denominador comum é chamado hipercitrullination.

Andrade explica que a citrulinação acontece naturalmente em todos como uma forma de regular a função das proteínas. Mas em pessoas com AR, este processo torna-se hiperativo, resultando no acúmulo anormal de proteínas citrulinadas. Isto controla a produção de anticorpos contra estas proteínas, o que cria a inflamação e ataca os próprios tecidos da pessoa, fator este que é a marca registrada da Artrite Reumatóide.

Entre as diferentes bactérias associadas à doença periodontal, a equipe de pesquisa descobriu que a A. actinomycetemcomitans era o único agente patogênico capaz de induzir hipercitrulinação em neutrófilos, uma célula branca imune altamente enriquecida com as enzimas peptidilarginina desiminase (PAD) necessárias para a citrulinação. Os neutrófilos são as células inflamatórias mais abundantes encontradas nas articulações e nas gengivas dos pacientes com AR e doença periodontal, dizem os pesquisadores. Estas células têm sido estudadas durante muitos anos como a principal fonte de hipercitrulinação na AR.

A bactéria A. actinomycetemcomitans inicia a hipercitrulinação através da secreção bacteriana de uma toxina, leucotoxina A (LtxA), como uma estratégia de autodefesa para matar as células imunes do hospedeiro. A toxina cria buracos na superfície dos neutrófilos, permitindo um fluxo de altas quantidades de cálcio para a célula, onde as concentrações são normalmente mantidas baixas. Uma vez que as enzimas PAD são ativadas com cálcio, a exposição abrupta a elevadas quantidades de cálcio sobre ativa estas enzimas, gerando hipercitrulinação.

Os pesquisadores descobriram anteriormente que um tipo semelhante de proteína de formação de poros que foi produzido para matar os patógenos pelas células imunes do hospedeiro estava provocando hipercitrulinação nas articulações de pacientes com AR. Estes achados apontam para um mecanismo comum que está cutucando buracos nas células, o que pode ser relevante para o início da AR quando a doença está sendo estabelecida, diz Andrade.

Como parte de seu estudo, a equipe desenvolveu um teste usando a bactéria e LtxA para detectar anticorpos contra a A. actinomycetemcomitans no sangue. Usando 196 amostras de um grande estudo de pacientes com AR, os pesquisadores descobriram que quase metade dos pacientes – 92 de 196 – tinha evidência de infecção por A. actinomycetemcomitans. Estes dados foram semelhantes aos pacientes com doença periodontal, que tinham cerca de 60% de positividade, mas bastante diferente em controles saudáveis, que teve apenas 11 por cento de pessoas com resultado positivo para a A. actinomycetemcomitans. Mais surpreendente ainda, a exposição a A. actinomycetemcomitans foi um dos principais determinantes na produção de anticorpos para proteínas citrulinadas em pacientes com susceptibilidade genética à AR.

Andrade advertiu que mais de 50% dos participantes do estudo que tinham RA não tinham nenhuma evidência de infecção com A. actinomycetemcomitans, o que pode indicar que outras bactérias no intestino, pulmão ou em outro lugar poderia estar usando um mecanismo semelhante para induzir hipercitrulinação. Ele ainda acrescenta que o estudo de sua equipe só analisou os pacientes em um único estágio da AR estabelecida, e que para provar causa e efeito de A. actinomycetemcomitans e AR, mais investigação será necessária para acompanhar o potencial papel das bactérias no início e na evolução da doença, que pode abranger décadas. “Se soubermos mais sobre a evolução de ambos combinados, talvez possamos prevenir e não apenas intervir”.

Estima-se que 1,5 milhões de pessoas em todo o país vivem com artrite reumatóide, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Os tratamentos atuais com esteróides, imunoterapia e fisioterapia ajudam alguns reduzindo ou retardando as deformidades articulares incapacitantes e dolorosas, mas não em todos os pacientes. A exploração de opções alternativas de tratamento é necessária.

Fonte: Dental Press

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