Os perigos do açúcar

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Laís Volp e Dra. Carla Vorsatz  

A descoberta

Um artigo publicado em 12 de setembro de 2016 pelo JAMA Internal Medicine[1]revelou que os dados da revisão de literatura sobre as consequências da ingestão de açúcar e de gordura para a saúde coronariana, divulgados pelo New England Journal of Medicine[2,3] em 1967, foram manipulados para atender aos interesses da indústria do açúcar, no caso, a sacarose, também conhecida como açúcar de mesa.

Realizada por eminentes pesquisadores da época, e financiada pela Sugar Research Foundation, a revisão isenta o açúcar e implica a ingestão de gorduras na etiologia da doença coronariana. A publicação, cujo financiamento pela Sugar Research Foundation foi ocultado, teve grande repercussão, influenciando e orientando as diretrizes médicas e nutricionais durante meio século. A notícia sobre a manipulação dos dados da pesquisa provocou comoção na comunidade científica internacional.

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Embora a indústria do açúcar, liderada pela Sugar Association nos Estados Unidos, ainda negue a existência de relação entre o consumo do açúcar refinado e o risco de doença coronariana, é fato que, se os dados da revisão da literatura publicada em 1967 tivessem sido apresentados de modo adequado, as recomendações teriam sido de reduzir a ingestão tanto de gordura quanto de açúcar, e não apenas da gordura saturada.

Por influência dessa revisão, a gordura saturada foi compreendida como elemento central, retirando a ingestão de açúcar do rol de fatores de risco de doenças cardíacas e serviu de instrumento para o lobby da indústria do açúcar, além de ter orientado as diretrizes nutricionais da década de 80.

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Novas diretrizes oficiais

A manipulação dos dados da revisão mascarou as consequências do uso do açúcar para o corpo humano. Atualmente, sabe-se que o consumo regular do açúcar pode causar doença coronariana,[4] diabetes tipo 2, problemas neurológicos, [5] doença renal crônica, [6] problemas de aprendizagem[7] e síndrome metabólica. [8] Além de seu uso estar associado a esteatose hepática gordurosa não alcoólica. [9] Em 4 de março de 2015 a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou o novo guia de recomendações de consumo de açúcar para adultos e crianças. A recomendação atual é de que o consumo diário não ultrapasse 10% das calorias ingeridas, em uma dieta saudável. Maiores benefícios à saúde podem ser alcançados se o consumo diário de açúcar for reduzido para 5% das calorias ingeridas (ou cerca de 25 g de açúcar por dia).

Entre os benefícios do controle da ingestão diária de açúcares estão melhor controle do peso corporal; prevenção do sobrepeso e da obesidade, das doenças crônicas não-transmissíveis (em especial o diabetes); e a diminuição de cáries dentária.

O açúcar presente naturalmente em frutas, verduras, legumes e leite fresco não deve ser computado nesta restrição. O consumo destes alimentos in natura deve ser promovido e estimulado, para toda a população, em todas as faixas etárias. [10]

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Por baixo dos panos

As relações entre as indústrias muitas vezes se pautam em uma ideologia que coloca o faturamento das corporações em primeiro lugar. Recentemente, um artigo publicado pelo American Journal of Preventive Medicineafirmou que, de 2011 a 2015, a Coca-Cola Company e a PepsiCo patrocinaram 95 organizações nacionais de saúde, incluindo diversas instituições médicas e de saúde pública, cujas missões específicas compreendem lutar contra a epidemia de obesidade. Durante o período do estudo, estas duas empresas de refrigerantes fizeram lobby contra 29 projetos de lei de saúde pública, visando reduzir o consumo de refrigerantes ou melhorar a alimentação da população. [11] Até mesmo os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) receberam financiamento destas empresas.

Além desse artigo, muitas outras publicações vieram à tona, evidenciando a atuação das grandes corporações com o intuito de mascarar os efeitos deletérios do açúcar para a saúde, bem como a necessidade de redução ou até mesmo eliminação do consumo desses alimentos.

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Medidas universais

A OMS declarou que os governos devem tributar as bebidas contendo açúcar para lutar contra a epidemia mundial de obesidade e diabetes. Um aumento de 20% no preço poderia reduzir o consumo de bebidas com açúcar na mesma proporção, segundo o relatório da organização, “Fiscal Policies for Diet and Prevention of Noncommunicable Diseases“.

Consumir menos bebidas doces, com muitas calorias, é a melhor forma de combater o excesso de peso e de prevenir as doenças crônicas como o diabetes, embora a gordura e o sal dos alimentos processados também sejam prejudiciais, de acordo com o relatório. [12] Além disso, apesar dos esforços das indústrias, a crescente conscientização sobre os malefícios do açúcar começa a gerar movimentos de sindicatos e associações, que visam conter o consumo desenfreado desta substância.

Esse é o caso do sindicato dos médicos do Reino Unido e da British Medical Association (BMA), que estão reivindicando um aumento de 20% no valor de todas as bebidas com açúcar e propondo que o lucro seja utilizado para subsidiar o preço de frutas e vegetais, como parte de uma tentativa sustentável de melhorar a qualidade da alimentação no Reino Unido.

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Sugar Blues

Em 1975, o jornalista William Dufty publicou o livro Sugar Blues, considerado um verdadeiro dossiê sobre o açúcar. Ao longo de 14 capítulos, com 78 referências, Dufty conta a saga do açúcar: como foi introduzido na cultura ocidental, as doenças às quais está relacionado, a classificação como caloria vazia e antialimento, o enquadramento como substância que causa dependência física e psíquica, além da enorme importância comercial que o açúcar adquiriu, e das questões econômicas que envolvem a produção e a distribuição dele.

O livro tem linguagem contundente, discorre sobre o tema de forma bem fundamentada e teve grande influência sociocultural, marcando uma geração e lançando as bases do movimento pró-saúde observado atualmente, No entanto,  não ecoou significativamente nas comunidades científica e acadêmica na época.

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O gosto amargo do açúcar

O açúcar, como produto de refinamento, é comparável às drogas: a heroína é um derivado químico da papoula, inicialmente refinada em ópio, a seguir em morfina e por fim em heroína. Já o açúcar é um derivado químico da cana-de-açúcar ou da beterraba, inicialmente refinadas em melaço, a seguir em açúcar mascavo e por fim em estranhos cristais brancos.

Mais tarde, o eufemismo “feito exclusivamente com ingredientes naturais” foi atribuído pela indústria ao açúcar, e pelos traficantes à heroína. [13] Para reforçar a analogia entre o açúcar e a droga, compare o desempenho dela nos critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS) que definem as características substâncias causadoras dependência química na 10ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-10):

  1. Forte desejo ou compulsão de consumo.
  2. Dificuldade de controlar o impulso em termos de início, término ou níveis de consumo.
  3. Estado de abstinência fisiológica, quando o uso da substância for reduzido ou cessado, evidenciado como síndrome de abstinência característica ou uso da mesma substância (ou de alguma intimamente relacionada), com a intenção de aliviar ou evitar os sintomas da abstinência.
  4. Tolerância comprovada, de modo que sejam necessárias doses cada vez maiores da substância psicoativa, a fim de obter os efeitos originalmente produzidos por doses mais baixas.
  5. Abandono progressivo de outros prazeres em favor do uso da substância psicoativa: aumento do tempo necessário para obter, tomar ou recuperar-se dos seus efeitos.
  6. Persistência do consumo, a despeito das consequências nocivas, como, por exemplo, lesão hepática por consumo excessivo de bebidas alcoólicas, bem como humor depressivo em função do consumo excessivo.

De acordo com a OMS, o diagnóstico de dependência é firmado quando houver três ou mais critérios presentes no ano anterior.

Tecnicamente, o fato de o açúcar preencher todos os critérios estabelecidos demonstra que ele poderia ser enquadrado na categoria das substâncias que provocam dependência química. [13]

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Tipos de açúcar

Uma das grandes dificuldades de redução do consumo de açúcar é a falta de regulamentação sobre a terminologia da enorme variedade existente de açúcares. Uma das formas mais comuns de se orientar sobre a presença do açúcar nos produtos é verificar a lista de ingredientes que compõem o alimento. No entanto, muitas vezes o consumidor sequer compreende que o alimento contém açúcar, pois os diferentes nomes frequentemente causam confusão. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), lançou um material informativo para alertar sobre os perigos do açúcar e orienta a prestar a atenção nas denominações presentes nos rótulos.

Conheça os nomes utilizados: glucose de milho | lactose | xarope de malte | glicose | frutose | néctares | açúcar cristal | sacarose | açúcar invertido | açúcar de confeiteiro | açúcar mascavo | açúcar bruto | mel | açúcar branco/refinado | melaço/melado | caldo de cana | dextrose | maltose e xarope de milho | xarope de malte | maltodextrina

No Brasil a informação referente ao açúcar na tabela nutricional ainda não é obrigatória, sendo este listado apenas como carboidrato.

 

 

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